Contracultura

A Contracultura

 

Antes de falarmos sobre contracultura faremos uma breve abordagem do significado de cultura.

Cultura é o produto de uma sociedade, criado através do processo social, consequentemente, fundamentado pelo processo histórico.

Pela convivência social se deram e se dão a organização do trabalho, as relações humanas, a comunicação, a troca de informações e conhecimentos, desenvolvimento científico e intelectual.

Os hábitos , comportamentos, formas de organização social, manifestações intelectuais, artísticas formam a cultura de uma sociedade.

Porém, em todas as sociedades existem as desigualdades na detenção do conhecimento. Os mais sábios sempre comandam a sociedade. Quem detém o conhecimento, detém o poder do controle social, e dessa forma, criam as regras e normas que a sociedade deverá seguir.

A Contracultura era um movimento político-cultural de caráter libertário que surgiu do confronto entre a cultura e a visão juvenil, indo contra alguns valores morais da cultura ocidental, que padronizados denotam o controle social institucionalizado e totalitário, tais como: maneira de pensar, comportamento sexual e social.

A liberdade que a contracultura pregava era antes de tudo individual e livre de qualquer preconceito. Não seguir um modelo de vida social imposto. O lema era se vestir, comer, fazer sexo, usar drogas, pensar e agir da maneira em que cada um se sentisse à vontade e sem prejudicar o próximo. Sem guerra, sem armas, sem proibições e repressões dos extintos naturais de cada um, sem regras impostas, sem condutas modeladas, sem repressão física ou moral.

Na arte, o movimento tomou forma, se expandiu, penetrando todas as camadas sociais, homens, mulheres, brancos, negros, e principalmente os jovens. Foi junto da música quebrando barreiras conceituais e convencionais que conseguiu atingir os diversos grupos socias. De um lado o termo contracultura pode se referir ao conjunto de movimentos de rebelião da juventude dos anos 60, do outro, uma coisa mais geral, abstrata, um certo modo de contestação.

As manifestações culturais surgidas na Europa, Estados Unidos, América Latina na década de 1960, feitas por jovens da classe média em sua maioria, que tiveram contato com teorias de grandes cientistas sociais e estudiosos do comportamento humano nas universidades, se expandiram graças à mídia. A imprensa norte-americana criou o termo Contracultura, para nomear essas manifestações de idéias libertárias contrárias aos modelos comportamentais da cultura ocidental.

! Geração Beat

Surgida nos anos 50, a Geração Beat – Beat Generation – foi o primeiro movimento contracultural com forte importância histórica e cultural a acontecer nos EUA. Seus integrantes eram conhecidos como beatniks (rótulo que Jack Kerouac reivindica autoria): uma corruptela do nome do satélite russo Sputnik com o termo inglês beat, de vários significados, entre eles o ritmo (tanto musical – a batida dos músicos de jazz – quanto de escrita) e o aspecto depressivo, que torna essa uma geração maldita. Outra maneira de se referir aos beatniks era como hipsters, cuja corruptela deu o conhecido hippies. Todos, como escreveu Kerouac em “On the Road” colocavam o pé na estrada embalados pelo jazz, sexo e drogas.

! Beatniks

Para que se entenda a relevância dos beatniks, é necessário ter uma panorâmica do que eram os EUA naquela época. Isso porque, após a Guerra Fria – a gerra na qual as duas superpotências mundiais – EUA e União Soviética – procuravam ampliar suas áreas de influência sobre o mundo, numa disputa política e ideológica – a economia norte-americana estabilizou-se. O american way of life espalhava-se pelos quatro cantos do planeta em musicais, geladeiras e carrões rabo de peixe. Os EUA eram a nação mais próspera do mundo, um mar de prosperidade pós-guerra.

Os beats eram oriundos de famílias que passaram pela Depressão nos anos 30 viajando de trem à procura de emprego. O gene do não conformismo impedia que eles se estabelecessem, e foi cruzando o país de costa a costa, recitando poemas em galerias e procurando uma consonância maior entre vida e obra artística que eles fizeram história. Eram jovens que se conheceram dentro e fora da universidade, interessados em escritos não ortodoxos como Rimbaud, Willian Blake, Melville, Withman, Kafka, Nietzsche – alguns dos quais vieram depois a ser adotados nas universidades, sendo inclusive os professores acusados de transmitirem valores subversivos aos estudantes, dadaístas e surrealistas, que simplesmente pareciam não se ajustar nas engrenagens assépticas e apertadas dos EUA daqueles tempos. Inquietos, marginais (quando não minorias), pretendiam mostrar seu desgosto com o status quo do consumismo e da tecnocracia, contrapondo propostas alternativas de vida. Não queriam mudar o mundo, nem fazer a revolução, mas lutar pelo direito de ser um indivíduo. Não tinham soluções para os males do mundo. Nem para os próprios.

Apesar das principais contribuições desta geração terem se dado na literatura, não é difícil identificar traços seus em outras páginas. A criação espontânea, seguindo um ritmo mental, fluente, cheio de frases em movimento e a liberdade de uma poesia plena de imagens oníricas, surreais, liberta de quaisquer padrões, com versos de 5 linhas, sempre acrescentando ao que já se fez ao invés de rever encontra paralelos no jazz bop de Charlie Parker, ato de criação contínuo em improvisos no palco, e na pintura de Jackson Pollock, o expressionismo abstrato, aqueles quadros que mais parecem borrões sobre borrões sobre borrões.

! Precursores

A Geração Beat na literatura compreendia um número pequeno de escritores, dos quais Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs são os mais conhecidos. Os três se conheceram na Universidade Columbia, em Nova York, no meio da década de 40, e se tornaram grandes amigos, cada um encorajando o outro a escrever por mais de dez anos, até que as editoras começaram a levar seu trabalho a sério no fim dos anos 50. Eles se concentravam em Nova Iorque e San Francisco, e eram altamente requisitados pela indústria editorial. A Geração Beat não foi uma turma de hippies. Se o Woodstock é o símbolo dos hippies, uma pequena taverna escura, às 2 da madrugada, com vários jazzistas numa jam session e Jack Kerouac comprando bebidas no bar é a mais perfeita tradução dos Beats.

Allen Ginsberg – É considerado o principal poeta da Geração Beat. Judeu, comunista e homossexual, dedicava seus poemas aos amigos. Aglutina dois traços marcantes: o orientalismo, que aparece também entre os outros, em geral em formas mal resolvidas, e o ativismo político, só dele. No final dos anos 60 Ginsberg fez uma viagem ao Oriente, quando trocou definitivamente as drogas que já tinha utilizado antes (maconha, morfina, anfetamina, LSD, mescalina, cogumelos) por ioga e meditação. Tinha uma relação mística com os alucinógenos: achava que eles lhe permitiriam descobrir como era o além. Mais do que conseguir verter seus sentimentos em poesias marcadamente declamatórias (próprias para se ler em público), Ginsberg emprestava conotações políticas às sua idéias, chegando a propor (e realizar) besteiras como a distribuição livre de LSD para as pessoas. Mas foi essa consciência que fez com que ele otimizasse a transição para os anos 60 e os movimentos que viriam em seguida, sendo figura ativa em marchas hippies ou no Maio de 68, na França. Allen Ginsberg continuou ativo nos anos seguintes até morrer, no começo de 97, em Nova Iorque.
Jack Kerouac – Acreditava que sua missão na Terra era escrever livros e pregar a bondade universal. Sua auto descrição é uma das melhores coisas que ele escreveu: estranho e solitário católico, místico e louco. Dizia que sua maior luta era fazer com que o homem tivesse o direito de ser o que quisesse, ensaiando aqui a sociedade alternativa pregada pelos hippies. Ainda em fins da década de 40, partiu nas férias para o que seria a aventura de sua vida: viajar de uma costa à outra da América do Norte apenas utilizando meios de transporte baratos: trens de carga, caminhões e carona.

“On The Road” – “Pé Na Estrada” -, como o livro ficou conhecido, narra aquela e mais outras 3 viagens que Dean Moriarty e Sal Paradise (Kerouac) fizeram. Literariamente, “On the Road” é mais um fruto que se insere na linhagem norte-americana de escritores viajantes, como Mark Twain, Jack London e Hemingway, e que apresenta laços de parentesco com uma série de menestréis que vai de Woodie Guthrie à Bob Dylan. Utilizando-se da prosa espontânea, Kerouac escreveu outros livros, nenhum de qualidade comparável: The Town and the City, The Subterrans, The Dharma Bums – este último da fase budista. É interessante observar o conflito entre a elétrica vida deles e as tentativas de absorver as influências orientais, como o isolamento, o ascetismo e a meditação.

Kerouac morreu isolado, em 1969, na sua cidade natal.
William Borroughs – Proveniente de uma rica família, formado em medicina, mais velho e mais culto que os outros, influenciou à todos. Foi viciado em heroína por 10 anos, e o relato desse tempo está em Junky, seu primeiro livro, um arraso em termos de crueza de imagens e sensações, um depósito dos demônios íntimos que assolam a vida de um dependente. Kerouac tanto insistiu que ele acabou escrevendo um livro com o título sugerido: The Naked Lunch. Naked Lunch é a compilação mais ou menos seqüencial de viagens, horrores e paranóias que permeavam o imaginário sombrio, habitado por traficantes, lagartos, sodomitas e monstros de Borroughs nos anos do vício, em Tânger. Sobre esse livro Anthony Burguess, autor da obra-prima A Laranja Mecânica, disse: “Poucos homens tem a capacidade de olhar o inferno e contar o que viram; Borroughs é um deles”. Borroughs escreveu depois livros como “O Tíquete Que Explodiu” e continuou em ação ao longo do tempo, em parcerias com David Bowie ou pontas em filmes (como Drugstore Cowboy).
Charles Bukowski – Dizia que um escritor não tinha razão de falar com outro, e mostrou isso num conto em que narra seu encontro com Borroughs. Capítulo à parte da literatura norte-americana pelo seu conteúdo iconoclasta, pelo método de criação incomum – nas coxas, pelo universo fictício mais denso e (grotesco, até) que qualquer outro escritor metido a marginal jamais conseguiria criar. Beberrão, perdedor nato, ex-carteiro, apostador em cavalos, é a encarnação viva do outro lado da moeda do sonho americano. Bukowski é injustamente (mesmo que a seu pedido) colocado à parte dos beatniks, (a maioria dos quais conhecia, quando não admirava) porque morava em outra cidade, Los Angeles. Claro, havia outros motivos: ele começou a escrever mais velho, não tinha curso superior nem era do circuito acadêmico, era completamente apocalíptico e detestava criar em grupo.
Hispsters

Na mesma época dos beats também havia um outro grupo descontente com o tipo de vida da sociedade de consumo. Eram os hipsters, que se opunham aos squares – conformistas e fiéis defensores do american way of life. Diante da falência da revolução proletária nestas sociedades industriais avançadas, o hipster é aquele que se revolta e nega violentamente os valores estabelecidos. Na sociedade americana, ele pode ser definido como “negro branco”, exatamente porque nessa sociedade os negros são aquele grupo que, por sua posição marginalizada, se vê obrigado a manter sempre um atitude de rebelião, uma vez que está constantemente exposto ao perigo. Finalmente, hipster e square são, antes de mais nada, um “estado de espírito”, uma atitude de revolta ou de conformismo diante do status quo das então modernas sociedades democráticas.
Sociedade Alternativa – Hippies

Descendentes diretos dos beatiniks, os hippies começaram a se afirmar pela metade da década de 60, inicialmente concentrando-se em São Francisco, L.A.

Em geral, eram jovens brancos, de classe média, com idade entre 17 e 25 anos, instruídos e bem cuidados, mas que também repudiavam a sociedade industrial e o sistema capitalista, detestavam a ordem, o poder e as autoridades. Jamais canalizaram a sua energia para as formas de luta política até então conhecidas.

Muitos hippies, a bem da verdade, simplesmente buscavam a satisfação de seu hedonismo, no abuso drogas e do sexo livre, estes, eram insaciáveis, bebiam, fumavam, buscavam qualquer tipo de prazer a qualquer custo. Eles eram adeptos da não-violência, do gozo, do misticismo, do altruísmo, da vida em comunidade e voltada ao contato com a natureza, daí a criação de várias comunidades rurais alternativas em vários lugares do mundo. Tornaram-se um grupo indefinido já que vários outros grupos haviam se agregado, e disso surgiram novos grupos, tais como: grupos ecológicos, feministas, negros, pacifistas, etc.

Não havia organização ou liderança central, o movimento expandiu-se espontaneamente, como resposta à vida cada vez mais mecanizada da sociedade tecnocrata. A maior parte da filosofia, estética, música é derivada do uso de alucinógenos, principalmente o LSD. Essas drogas, chamadas de psicodélicas, propiciam um estado mental de deslumbramento, visões incríveis, percepção e instintos aguçados e sublimados.

Especialmente no que se refere aos EUA, toda a movimentação em torno das várias manifestações da cultura jovem, indo do flower power – poder da flor – aos estudantes intelectuais da Nova Esquerda que se formava, passando pelo movimentos como o gay power ou woman’s lib, é acompanhada de perto pelo surgimento e pela consolidação do black power, o poder negro, cuja luta teve como ponto de partida e ponte de articulação com a revolta de outros grupos a difícil batalha pelos direitos civis que marcou, desde o início, a década de 60 nos EUA.
Black Power

Com a participação do líder e ativista: Martin Luther King desde pequeno se preocupava com questão dos direitos civis e percebeu o poder que a igreja tinha para modificar as pessoas. Ordenado a pastor da igreja de seu pai (Batista) inicia o boicote às linhas de ônibus que discriminavam negros. No sul do Estados Unidos os negros tinham lugares reservados na parte traseira do ônibus e eram obrigados a levantar e ceder lugar aos brancos caso o ônibus estivesse lotado, em estações de trem haviam salas de espera e toaletes separados para brancos e negros, em alguns restaurantes simplesmente não eram servidos. Uma série de atentados e ameaças contra a comunidade negra e à vida de King começaram a ocorrer.

Unidos pela força de King estudantes negros, iniciam a prática do Sit Inn , uma forma de protesto pacífico em que se sentava num lugar proibido para os negros até que a polícia viesse os retirar dali ou os prendesse.

Anos depois, 62 e 63, são marcados por protestos e manifestações ainda mais violentas reunindo milhares de pessoas , como é o caso da manifestação organizada por King em 28 de agosto de 1963 reunindo mais de cem mil pessoas fazendo seu famoso discurso “Eu tenho um sonho” ( I have a dream ). A partir disso, é aprovada a Lei dos Direitos Civis integrando a segregação de brancos e negros em diversos locais públicos.

Mas King foi morto em 68 a tiros por um branco, James Earl Ray na sacada de um hotel em Memphis. Com sua morte, aumenta ainda mais a revolta dos negros que travaram uma luta em prol da comunidade negra tomando novas direções porém mantendo- se eficaz.

Crescia a resistência ao serviço militar e à Guerra do Vietnã. No mundo inteiro eram feitas manifestações nas universidades e nas ruas. Protestos durante a convenção do Partido Democrata em Chicago, se transformaram numa batalha entre jovens e policiais.

Surge os Panteras Negras, uma organização de traços que beiravam o terrorismo, mas também vivia de experiências culturais como o soul music (música da alma), que explodiu com a gravadora Motown que ficava em Detroit, só de artistas negros. O verdadeiro palco de distúrbios raciais com a destruição de diversos quarteirões.

Era o nascimento do Black Power, que nos anos 70 viveria seu auge, inclusive com o lançamento de livros, filmes e minisséries de grande impacto para a tv, mudando o enfoque dos filmes policiais em que os negros apareciam geralmente apenas como foragidos.
Timothy Leary – Timothy Leary, doutor em psicologia, lecionou e desenvolveu pesquisas sobre o cérebro e a mente humana em importantes universidades americanas, como Berkeley e Harvard.

Segundo ele, cinco horas sob o efeito de cogumelos foram mais reveladores do que seus quinze anos de pesquisa, assim, conseguiu convencer o Departamento de Psicologia de Harvard a iniciar pesquisas administrando cogumelos alucinógenos conhecidos como Psilicybin a estudantes, que se mostraram interessados.

Muitos dos estudantes que não puderam entrar no programa de pesquisa, obtiveram a droga por outros meios e começaram a usá-la por conta própria. O Departamento de Narcóticos acabou envolvido e a CIA começou a ficar atenta a essas atividades.

Depois de se expulso de Harvard, Leary e Alpert, com fundos próprios, continuaram suas pesquisas com drogas psicodélicas em uma imensa mansão-fazenda. Recebiam, amigos, conhecidos, artistas, poetas ou qualquer pessoa que estivesse interessada em participar da experiência. Lá recebiam LSD desde que após relatassem a experiência com o LSD.

Com as mudanças culturais que aconteciam naqueles anos loucos, o governo estava ficando alarmado com o modo que a juventude começou a usar LSD.

Leary participou ativamente do movimento anti-guerra e canta “Give Peace a Chance” com John Lennon e Yoko. É preso por porte de droga, mas foge da cadeia em 1970 e é preso novamente 1972. Timothy Leary, faleceu em maio de 1996.
A influência do Rock

Até meados de 1965, o rock parecia uma interessante mesmice com músicas que diziam ou suplicavam por amores infelizes ou conquista de um amor. A partir de 1967, nunca mais seria a mesma. SGT Peppers ,é o retrato de uma geração que se desvencilhava da repressão e criticava todo modo totalitário de governo. A arte imita a vida ou vice-versa. Mentores de uma geração e acima de tudo porta-vozes de uma época. Muitos se deliciaram com SGT Peppers, porém o conservadorismo viu algo como uma ameaça, uma constante apologia às drogas. Nesse mesmo ano, os Beatles cantam “All you need is love” para 400 milhões de pessoas via satélite. Era o verão do amor o “flower power”.

Nesta mesma época, surgem nomes importantes e muito significativos hoje em dia: Jimi Hendrix, The Doors, Janis Joplin. Mas mesmo assim medalhões como Bob Dylan, apesar de ter desaparecido musicalmente durante um tempo, era uma grande influência. Dylan foi um dos primeiros músicos politizados.

Hendrix, teve sua importância quanto ao som principalmente no Woodstock que aconteceu em 1969 . Seu som importava mais do que suas letras, diferentemente do Doors.

O festival de Woodstock, teve três dias de duração com sol, chuva e muita música. Jovens tomavam álcool e drogas, como a já conhecida LSD e a maconha. Novos valores e novas idéias eram absorvidos pelos milhões de jovens.

Outro festival que marcou a época foi o de Altamont, onde apesar de todos quererem se expressar de forma igual, a contra cultura mostrou sua face violenta. Os Rolling Stones se apresentaram de graça para uma multidão que esperou por horas, enfrentou um enorme congestionamento e teve que ficar quietinha para não irritar os Hell Angels, que no caso eram os seguranças.

Resultado final do festival: ingestão excessiva de álcool e drogas, inúmeras brigas e quatro mortes, que simbolizavam os resíduos de uma sociedade neurótica e agressiva.

O ano de 1968

O ano de 1968 ficou marcado por manifestações de estudantes e intelectuais – principalmente – e de diversos indivíduos da sociedade de todo o mundo, influenciados por ideais libertários e contra o sistema repressor social. Questionavam em forma de manifestações artísticas e políticas, tomadas por uma sede de libertação individual dos sistemas políticos e sociais vigentes em seus países.

Coincidentemente na Europa e EUA, principalmente, as Universidades se expandiam criando novos espaços para discussões estudantis, iam de embalo com essa expansão as teorias de grandes pensadores e críticos sociais, como Marx.

Nome que ficou conhecido como ícone vivo de contestação ao sistema social institucionalizado foi Herbert Marcuse. Membro da escola de Frankfurt, lecionou em Universidades norte-americanas e européias, ao mesmo tempo que difundia suas críticas ao sistema de vida nos países avançados, que manipulam a sociedade pelos meios de comunicação de massa.
Primavera de Praga

A Tcheco-Eslováquia vivia sob tutela da URSS. O controle do país era garantido pelo Partido Comunista Tcheco-eslovaco.

A Primavera de Praga de 1968 – entre março e maio – foi o protesto do povo contra o comando soviético de base stalinista. Repressor, censurador, inflexível, explorava a economia em favor da URSS.

As condições sociais na Tcheco-eslováquia eram precárias: desemprego, baixos salários, infra-estrutura insuficiente para suprir as necessidades populares.

O Estado investia na indústria pesada não acompanhando o desenvolvimento tecnológico.

A insatisfação popular era geral. O PCT se dividiu em duas alas. A ultraconservadora, tendo à sua frente Antonin Novotny – presidente da República e 1º secretário do partido – fiel ao sistema stalinista. A outra ala, liberal, era liderada por Alexander Dubcek, secretário do partido.

No início do ano de 68, Alexander Dubcek assume a presidência do PCT, pressionado pelo povo e imprensa, consente reformas sociais, políticas. Ele representava os comunistas de idéias marxistas e progressistas: intelectuais, estudantes, filósofos que não visavam o fim do regime, mas mudanças que permitissem a inserção da democracia nele.

Dubcek começou sufocando a censura. Em todos os lugares as discussões em favor da liberdade de expressão, economia e política mais liberal eram o foco das reuniões sociais.

A URSS, insatisfeita com as reformas coloca suas tropas juntamente com as do Pacto de Varsóvia – na fronteira do país como maneira de reprimir o movimento democrático, mas não alcança o objetivo.

Na metade de 68 vem a público um documento – o manifesto das 2 mil palavras – que questiona o poder do partido único, contando com a adesão de vários intelectuais e personalidades.

Para rebatê-lo a URSS e integrantes do Pacto de Varsóvia assinam a Carta dos Cinco, baseada no comunismo de Stálin, como forma de reprimir as reivindicações populares pela democracia.

Em agosto, no dia 20, a capital Praga é invadida por tanques, canhões e milhares de pára-quedistas soviéticos. Dubcek é preso junto com outros liberais. O povo responde com manifestações obrigando Moscou a libertá-los. Dubcek retorna ao país com o encargo de desfazer todas as reformas democráticas.

No ano seguinte Gustav Husak assume o cargo de presidente da República e em 1970 Dubcek sai do Partido Comunista Tcheco-eslovaco.

Situacionistas – Maio de 68 – França

Tudo começou com a insatisfação dos estudantes franceses com o sistema acadêmico rígido da Universidade de Nanterre, em Paris. Estes protestam, invadem a universidade e passam a servir de exemplo para outros estudantes descontentes com a estrutura acadêmica francesa. Não demora para esta influência alcançar outros setores da sociedade – os trabalhadores e operários.

O movimento, a princípio estudantil, passou a contar com o apoio e adesão de trabalhadores insatisfeitos com a exploração no trabalho. Juntos contestavam toda a forma de rigidez, repressão e injustiças sociais. Protestavam contra o sistema econômico, político e social do governo do General Charles de Gaulle, já desgastado pela guerra da independência da Argélia.

Os lemas do movimento eram: seja realista, peça o impossível e é proibido proibir.

A frente dos protestos 2 estudantes, Daniel Cohn-Bendit e Tinnot Grumbach, lideravam as barricadas no bairro intelectual de Quartier Latin, reunindo milhares de manifestantes, episódio que ficou conhecido como a noite das barricadas.

A situação ficou insustentável a tal ponto que o presidente de Gaulle, no dia 29 de maio teve de sair de Paris de helicóptero e se refugiar para articular um plano de retomada do controle do país. As greves tomavam conta de quase todos os setores da economia francesa, todavia a festa popular durou pouco, o movimento foi desarticulado pela polícia deixando um saldo de 1500 feridos e centenas de carros incendiados e danificados.

O mês de maio das lutas revolucionárias, das reivindicações e revoltas populares, não virou a página do calendário francês. Suas influências migraram além das fronteiras da França. No mundo inteiro, em diversos países, capitalistas ou comunistas ocorreram revoltas e protestos semelhantes logo após o episódio de maio na França.

Fontes:

http://wiki.projetometafora.org

http://www.aglioeolio.hpg2.ig.com.br/hi003.htm

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O que é Contracultura? – Carlos Alberto Messeder Pereira

“Vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura.”

Este é o primeiro verso do poema “Howl” (berro, uivo), publicado em 1956, e alvo de um processo por obscenidade em São Francisco; seu autor Allen Ginsberg , junto com William Burroughs , Jack Kerouac , Carl Solomon , eram os principais representantes dos chamados “Beatniks”, haviam surgido na década de 50, eram uma espécie de rebeldes e marginais, poetas e escritores que viajavam por toda a América e usavam os fatos que aconteciam em seus livros. São a origem do movimento hippie; vivendo na América do pós-guerra, assistiram toda a efervescência do mercado de consumo norte-americano, mas rejeitaram o consumismo e o proclamado “American Way of Life”, refugiaram-se nos bairros boêmios, se apoiavam em crenças como a da necessidade do “desengajamento em massa” ou da “inércia grupal”. Assim como os hippies foram depois, os beats já eram bastante atraídos pelo orientalismo, principalmente o Zen Budismo; rejeitaram o intelectualismo, preferindo uma vida sensorial e desprezando a segurança de uma carreira ou uma posição social.

Na mesma época dos beats também havia um outro grupo descontente com o tipo de vida da sociedade de consumo, eram os “Hipsters”, que se opunham aos “Squares”, ou seja, quadrados, caretas, os quais os hipsters desprezavam por serem conformados e adaptados ao sistema.
Um romancista americano profundamente ligado à todo o clima de contestação que já vinha se afirmando desde o início dos anos 50, chamado Norman Mailer , foi quem chamou a atenção para os hipsters, mas quem havia lançado o termo foi Ginsberg no poema “Howl”. Norman consagrou o termo em 1958 no artigo: “The White Negro: Superficial Reflections on the Hipster”. O hipster é aquele que mantém uma posicão de rebelião contra a situação e valores estabelecidos pela sociedade de consumo, por isso Mailer usou o termo “white negro”, porque os negros sempre discriminados e marginalizados tinham que também manter sempre a atitude de revolta.

Apesar do valor que Mailer percebe na atitude beat de “busca da sensação” e da “satisfação orgástica”, não aceita aquilo que ele vê como sua passividade ou falta de afirmatividade. Assim, acima do beatnik, ele colocaria o hipster, cuja consciência dos extremos terrores da vida assemelha-se e é derivada da que têm o negro, “pois nenhum negro pode andar pela rua seguro de que a violência não irá encontrá-lo em seu passeio”. O que Mailer admirava no hipster era a sua coragem de aceitar o desejo “de se desligar da sociedade, de existir sem raízes, de empreender essa viagem sem rumo pelos rebeldes imperativos do ego. Em suma, seja ou não uma vida criminosa, a decisão está em encorajar o psicopata que existe dentro de si mesmo, de explorar aqueles domínios de experiência em que a segurança é tédio e portanto doença (…)”
É assim, neste sentido, que aquela forma de “delinqüência juvenil” atualizada pela atitude hipster estava “desafiando o desconhecido”.

Em seguida a isso, no início da década de 60, já começavam a se aglomerar na Califórnia, jovens vindos de todos os cantos do país, geralmente cabeludos, com roupas coloridas e enfeitadas, que procuravam um novo estilo de vida, assim como os beats, baseado no prazer, doutrinas orientais, tudo regado a vários tipos de drogas, principalmente os alucinógenos.
Não se sabia ao certo o que estava acontecendo, alguns falavam em uma nova era, uma nova consciência etc. Se era uma revolução ou mais um modismo não se sabia, mas já começou a circular na imprensa o termo “Contracultura”. Até este momento, o movimento ainda era conhecido apenas pelos aspectos visuais como roupas, cortes (ou a falta destes) de cabelos,etc.

Descendentes diretos dos Beatniks, os hippies começaram a se afirmar pela metade da década de 60; inicialmente, concentravam-se em São Francisco, L.A., principalmente na região das ruas Haight-Ashbury.
Em geral, eram jovens brancos, de classe média, com idade entre 17 e 25 anos, instruídos, bem nutridos e bem criados, mas que também repudiavam a sociedade industrial e o sistema capitalista, detestavam a ordem, o poder e as autoridades.
Jamais canalizaram a sua energia para as formas de luta política até então conhecidas, fazendo manifestações que podem ser consideradas no mínimo muito estranhas, como por exemplo em 1967, quando centenas de hippies se reuniram em volta do Pentágono (central militar norte-americana) em protesto contra a guerra, e ameaçavam fazer o pentágono “flutuar” com a força da mente, ainda neste ano foi realizado o “enterro” dos hippies, onde proclamaram: “Os hippies morreram, Viva os homens livres”. Ainda em 67, foi criado o “Youth International Party” (Partido Internacional da Juventude), este lançou a figura do “yippie”, que era uma espécie de hippie mais politizado.

Em 1968, era estimado que existiam em média 10.000 em Haight-Ashbury, e 300.000 nos E.U.A. e no resto do mundo, mas este número aumentou muito nos anos seguintes. A intenção era a de criar uma nova sociedade, um mundo pleno de satisfação e prazer. Queriam se livrar da opressão, do patriarcalismo, e principalmente se livrar de um governo que consideravam já obsoleto, e que preferia (e ainda prefere) gastar imensas fortunas em guerras, do que usar esse dinheiro para cuidar de seus deserdados. Este é um dos pontos de partida do movimento, que era a luta contra a Guerra do Vietnã.

Muitos hippies, a bem da verdade só buscaram a satisfação do seu hedonismo, no abuso de drogas e do sexo livre, estes, eram insaciáveis, bebiam, fumavam, buscavam qualquer tipo de prazer a qualquer custo, e segundo eles: “sentem-se bem e não prejudicam ninguém.”
Os hippies eram adeptos da não-violência, do gôzo, do misticismo, do altruísmo, da vida em comunidade e voltada ao contato com a natureza, daí a criação de várias comunidades rurais alternativas em vários lugares do mundo. Se tornaram um grupo indefinível, pois vários outros grupos já haviam se agregado, e disso surgiram novos grupos; por isso pode-se dizer, que muito se deve ao movimento hippie, pois dele que foram criados, ou ao menos fortalecidos, grupos ecológicos, feministas, pelos direitos civis, dos negros, pacifistas, etc.

Não havia uma organização ou liderança central, o movimento expandiu-se espontâneamente, como resposta à vida cada vez mais mecanizada da sociedade tecnocrata. Manifestos como este abaixo, deixam mais ou menos claro o que eles queriam, este foi afixado na entrada da Sorbonne em 1968.

A revolução que está começando questionará não só a sociedade capitalista como também a sociedade industrial. A sociedade de consumo tem de morrer de morte violenta. A sociedade da alienação tem de desaparecer da História. Estamos inventando um mundo novo e original. A imaginação está no poder.

Os fundamentos, ou princípios básicos, eram três:

Deves fazer tua própria obra, qualquer que seja e quando quiseres.
Separa-te da sociedade em que até agora tens vivido, deixa-a em definitivo.
Sacode a mente de cada indivíduo digno que possas vir a encontrar, mostra-lhe o caminho das drogas, se não podes franquear-lhe a beleza, o amor, a honra, o prazer.

Arnold Toynbee, historiador, define-os como “uma luz vermelha de advertência à forma de vida norte-americana”, e um sociólogo os descrevia como “expatriados que vivem junto de nós, mas muito além de nossa sociedade.”
A maior parte da filosofia, estética, música, é derivada do uso dos alucinógenos, principalmente o LSD; essas drogas, chamadas de “psicodélicas”, propiciam um estado mental de deslumbramento, visões incríveis, percepção e sentidos aguçados e sublimados; esses efeitos são muito variados de pessoa para pessoa, e motivo de grandes controvérsias entre médicos e especialistas; muitos indivíduos experimentaram o que se chama de “bad trip”, ou seja, má viagem, que é exatamente o contrário da sensação de bem-venturança que a maioria das pessoas sente, visões horríveis, gritos e angústia, são alguns dos sintomas que a pessoa que toma pode sentir.
Pode-se entender também por experiência psicodélica, um estado mental de grande calma, percepção sensorial agradável, êxtase estético e ímpeto criativo. Pode-se dizer que a filosofia psicodélica consiste na “crença desapaixonada na revelação do próprio eu” e na “expansão das forças mentais”.

Como praticamente todos os outros movimentos que questionaram a sociedade, seu início foi espontâneo, genuíno, mas conforme foi se espalhando, foi sendo deturpado, incorporado ao mercado de consumo, e infelizmente, pode-se até dizer que é só mais uma entre tantas estórias do século XX.

Fonte: http://www.joplin.hpg.ig.com.br/princ_introducao.htm

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Terrorismo como resultado – Samerdi

Sou de origem árabe e como a maioria dos descendentes deste povo, que agora dizem ser primitivo, sou totalmente contra o que o tal bin Laden vem praticando.

Estão dizendo que ele e seus seguidores são desumanos e que odeiam os americanos. Eu diria que eles odeiam a modernidade, a qual acreditam tenha sido uma criação dos ocidentais e, nada mais ocidental que os americanos.

Porque haveriam de odiar tudo o que é moderno? Que razões teriam para tanto ódio?

Seria porque eles acham que o capitalismo selvagem e a tal globalização foram criadas para que uns poucos tenham tudo em detrimento dos restantes noventa por cento da humanidade, que terão se contentar com as migalhas das mesas dos raríssimos muito ricos?

Seria porque aqueles bárbaros primitivos estariam pensando em evitar que o mundo seja destruído? E todos sabem que o mundo está sendo destruído; lentamente é verdade, mas de maneira irreversível.

Seria esse o motivo de tanto ódio dos guerrilheiros do deserto? E é bom que se diga que eles sabem o que é viver num deserto. Talvez por essa razão eles queiram evitar que o mundo todo se transforme num deserto total. E, mais uma vez, é bom que se diga que isto está acontecendo de fato, isto é: estamos desertificando este planeta.

Mais até do que desertificar, estamos destruindo nosso habitat, que é o único de que dispomos, pelo menos a maioria de nós, já que os poucos “donos do mundo” estão de olho noutros planetas para verificar a possibilidade de se transferirem para um deles, pois sabem que o fim deste pode demorar alguns séculos mas, sabem eles, não vai dar para evitar.

O mito da “caixa de Pandora” transformou-se em realidade. Foi fácil abri-la, só que agora é impossível ser fechada, pois a cada instante novos objetos maravilhosos saem dela e a maioria de nós não resiste à tentação de consumir novidades e ninguém se dá conta de que a cada uma dessas quinquilharias que saem da tal caixa, um pouco mais da camada de ozônio é destruída; blocos imensos de gelo dos pólos desprendem-se diariamente, fazendo com que os oceanos tenham seu nível aumentado; mais árvores são derrubadas para que utilizemos a terra para aumentar produção de alimentos, os quais deverão ser, em sua maioria: geneticamente modificados, para que se possa alimentar mais e mais pessoas, cuja longevidade a indústria farmacêutica cuida de ir aumentando, afinal, quanto mais idosas as pessoas, de mais medicamentos irão precisar.

Em suma, modificaram tanto a natureza das coisas que agora não dá mais para voltar atrás.

Os fanáticos, contudo, acreditam que ainda dá tempo de corrigir tais erros. Creio que a idéia deles é a de diminuir drasticamente a população, não importa a nacionalidade, a crença, a cor ou sabe-se lá mais o que. Para eles também não importa que sejam suas vítimas favoráveis ou não às suas convicções, já que chacinam mesmo os de sua raça e religião, como aconteceu em Marrocos, no Sudão, na Arábia Saudita, na Indonésia, no Iraque.

Se este for um dos objetivos do terrorismo, não será de admirar que mais e mais chacinas aconteçam em todo lugar e a qualquer hora.

Claro que isto é um enorme absurdo, isto é, desejarem, certos grupos de fanáticos, que a humanidade retorne no tempo e volte a viver de maneira o mais próximo possível da natureza, da qual tiraríamos o mínimo necessário para nossa sobrevivência.

Seria como se aqui no ocidente um grupo de malucos se juntassem para praticar atos insanos como fazem os terroristas internacionais, a fim de exigir o controle da natalidade e acabar com tudo o que pode ser considerado ofensivo à natureza.

Coisas como automóveis e aviões e, principalmente, as supermáquinas agrícolas que roubam o emprego de milhões de pessoas em todo o mundo seriam destruídas por serem consideradas criações demoníacas.

Depois disso tudo, os novos donos do mundo obrigariam os sobreviventes a voltar a viver nas florestas com os índios a fim de aprender com eles a respeitar a natureza. Desfrutando dela sem causar-lhe danos irremediáveis, como os que os “civilizados” fazem, poluindo o ar, os rios e inclusive nossa própria mente, já que a maioria de nós vem sofrendo uma constante e atroz lavagem cerebral através dos meios de comunicação os mais diversificados.

Samerdi

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Da Contra-cultura à loucura – Cyro Linz

Não é de hoje que ouvimos falar em termos como “alternativo”, “underground”, “contracultura”, mas será que nós sabemos realmente o que estes termos significam? Quando eu menciono nós estou propositadamente incluindo aqueles próprios que se dizem alternativos, undergrounds ou contraculturais. Somos “eles” realmente o que dizem(os), ou estamos caindo na velha retórica ideológica? A partir de onde deixamos de ser “rebeldes sem causas” e passamos a ser verdadeiramente alternativos, ou melhor. É possível que sejamos realmente alternativos?

Vejamos, para entendermos isso é necessário que saibamos primeiro o que é alternativo, o que é contracultura. Numa primeira análise parece óbvio – contracultura é o que vai de encontro a cultura, mas que cultura é essa? A nossa sociedade é, está e sempre foi edificada em uma interpretação da realidade, o que isso implica? As instituições sociais, não estou aqui me referindo aos prédios e organizações governamentais, mas entenda-se como as convenções da ordem das crenças, das “opiniões” , das “verdades” e valores de nossa sociedade. Ora, desde que nascemos nós somos envoltos involuntariamente nessa “construção” ; por exemplo, quando uma criança nasce do sexo masculino suas roupinhas serão azuis, se mulher serão cor-de-rosa, tudo isso graças a uma convenção da nossa sociedade. Isso é apenas um pequeno exemplo do que vem a ser esse todo complexo formado pelas relações entre nós, seres da espécie humana.

Então, a sociedade, desde sua constituição, cria suas convenções às quais estamos sujeitos desde o nosso nascimento (ou até antes, como defende Freud) até a nossa morte, mas ao longo de nossa existência em sociedade essa própria “ordem” nos possibilita, através de maneiras de pensamento e reflexão (a ciência ou a filosofia, por exemplo), questionar esse conjunto de valores impostos a todos os seres humanos, a partir desse questionamento o indivíduo passa a por em prova a validade dessas instituições, dessas convenções criadas por nós mesmos. Por exemplo, se perguntarmos a opinião de alguém de uma cidadezinha do interior (que cultiva suas crenças e costumes) sobre o sexo antes do casamento certamente esse alguém vai ser contra, devido exatamente às suas crenças e costumes (instituições da ordem social). Mas se um jovem dessa mesma cidade se manifestar a favor e afirmar que não há problema na prática do sexo antes do casamento, certamente será repreendido, mas esse jovem, muito provavelmente, teve acesso à uma gama de informações diferentes, que tornou possível a sua relativização do assunto. Ora, esse jovem será repreendido por que ele não cumpriu as expectativas dos valores de sua sociedade, logo será tido como diferente.

Quando, nós, em sã consciência (ou não) questionamos os moldes determinados pela nossa sociedade, quando vamos de encontro à essa rede de convenções e instituições impostas pela sociedade e tentamos modificá-las de algum modo, quando tentamos “sair” dessa rede, estamos tomando uma atitude contracultural.

É preciso estarmos cientes do que somos e fazemos, não estou aqui dizendo que “dentro” da contracultura estaremos “fora” dessa rede de convenções, pois é impossível que isso aconteça totalmente, os que o fazem são considerados loucos e incapazes do convívio em sociedade. O que, em minha opinião, deve-se constituir como nosso dever dentro dessa esfera contracultural, é a busca de tornar o nosso nível de consciência da existência dessa “ordem” maior e tentarmos não tornar essa rede de convenções uma verdade suprema da nossa existência. Procurar dentro (e fora) das nossas possibilidades fazer com que essa máscara de considerações seja relativizada e que os padrões sejam postos em questão. Sugiro e sustento que todos nós, indivíduos pensantes da raça humana, sejamos loucos por alguns momentos e consigamos “sair” dessa rede que nos prende e conseguir ver de fora a “normalidade” do mundo em que vivemos.

 Fonte: http://www.contrac.hpg.ig.com.br/a_contracultura_loucura.htm

 

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O REENCANTAMENTO DO POLÍTICO:  INTERPRETAÇÕES DA CONTRACULTURA

Miriam Adelman
Universidade Federal do Paraná

 

 

Se ainda hoje a década de sessenta exerce tão poderosa atração sobre nossa memória coletiva, isso em si já é indício de que uma das principais narrativas ao seu respeito – a do seu “fracasso”, ou sua “morte” – deixa muito a desejar. Em Anti-Disciplinary Protest, Julie Stephens tenta demostrar exatamente isto, a partir de uma crítica de outras interpretações da política dessa década e uma re-leitura que se concentra principalmente, não na Nova Esquerda, senão em algumas das vertentes mais radicais da contracultura, geralmente dispensadas como menos dignas de interpretação. Entre seus interlocutores estão: Frederic Jameson (1984), que, na sua já muita conhecida interpretação a partir de um paradigma marxista de processos determinados por “necessidades históricas”, considera o período antes de mais nada como uma barulhenta inauguração de uma nova fase do capitalismo mundial; os analistas “de direita”, que vêem na época a expressão culminante da ameaça do declínio da grande cultura ocidental1, e o sociólogo Todd Gitlin (1984), com quem ela compartilha uma visão da década como tendo sido paradoxal, mas também como portadora de uma série de surpresas e novos fatos que não seriam redutíveis a uma lógica predeterminada da História ou do capital.

Stephens considera deficientes as abordagens mais comuns sobre o radicalismo dos anos sessenta, as quais constroem uma oposição entre o “radicalismo político” da Nova Esquerda e o “radicalismo cultural” dos hippies, diggers e muitos outros indivíduos e coletividades da contracultura, que se mantinham à distância de concepções e organizações mais convencionais. As análises mais comuns da inusitada resistência da década de sessenta, segundo ela, não nos ajudam a entender algumas das suas características mais importantes, interpretando como despolitizada toda uma lógica contracultural que, tendo na verdade uma visão diferente do político, antecipa (e contribui para) a emergência das visões pós-modernas que vieram a ocupar um espaço tão grande nos debates teóricos e políticos das últimas décadas do século XX.

O grande traço que distingue o radicalismo dos anos sessenta é o fato de ter elaborado uma política contestatória e conscientemente anti-capitalista que rejeitava abertamente as formas mais convencionais de fazer política da esquerda, isto é, o desenvolvimento do que ela chama uma anti-disciplinary politics: “its rejection of the discipline of politics: the surrendering of the idea of political resistance as a struggle involving sacrifice, obedience, order and constraint. Planning, reliable tactics and unambiguous aims were dismissed alongside bureaucracy and organization” (p. 25). A autora ressalta a continuidade entre essa concepção da política e a visão foucaultiana do poder disciplinar e a resistência ou revolta que ele gera, e argumenta que ela merece ser entendida na sua própria contribuição: sua própria lógica e intencionalidade de subverter a política convencional dos partidos, sindicatos, a política eleitoral etc. Assim, parece haver uma falta de compreensão do seu projeto entre seus críticos, que tendem a julgá-la por não se fundamentar exatamente naquilo que conscientemente rejeita: a estreiteza das categorias marxistas tradicionais. Para a contracultura, o projeto era precisamente ir além dos limites das formas de política convencional ou “disciplinar”, para inventar, na medida do possível, “a completely new language of politics” (p. 53).

Stephens traça várias conexões entre os métodos e visões da contracultura e o posterior desenvolvimento de discursos pós-modernos sobre sociedade e política: ela critica novamente outras interpretações do movimento, propondo que é o sucesso desse movimento e não seu “fracasso” (como se alega nas narrativas convencionais sobre a época) que prepara o terreno para a acolhida de noções pós-modernas da política e do político. Embora seja possível argumentar, segundo Stephens, que a contracultura também contribui para novas formas de conformismo (como alguns dos seus críticos mais conhecidos opinam), ela destaca-se também na maneira como se mantém altamente consciente dos seus próprios perigos. É um movimento eminentemente teatral e auto-consciente. Assim, utiliza a performance e o espetáculo como métodos de ação: em lugar de “planejar uma revolução futura”, trata-se de viver a mudança na transgressão direta e cotidiana, o que significa parodiar tanto a sociedade quanto a si mesma. Apropria-se da cultura popular para burlar a sociedade, os valores burgueses e a si mesma. Mas com esse “radicalismo estético”, que borra as fronteiras entre a alta cultura e a cultura popular e vê a realidade como um teatro onde “sempre se está representando”, correm-se certos riscos: principalmente, o de embarcar num caminho que desemboca na tendência pós-moderna de negar a existência de qualquer referente exterior ao discurso (“só há representação”) e do qual desaparecem as tensões, por exemplo, entre crítica e alienação, trabalho e não-trabalho, superfície e profundidade.

Embora a análise de Stephens identifique contradições nessa forma supostamente “despolitizada” de fazer política, que às vezes sucumbe aos mesmos paradoxos que pretende desvendar, também enfatiza a vitalidade de sua visão criativa, antiburocrática e antidisciplinar. É também nesse sentido que podemos achar nela as sementes de algumas das propostas do pensamento pós-moderno, de rejeitar as visões e posturas “totalizantes” que sempre forçam uma síntese como ponto de chegada. Pois nessa síntese há uma homogeneização ou unificação dos pontos discordantes, que, desse modo, perdem seu sentido e sua diferença. Assim, em lugar de privilegiar um ponto de vista ou uma forma de fazer política que silencia todas as outras, essa postura “pós-moderna” defende a coexistência de diversas formas de fazer política de contestação, articuladas desde diversas posições de sujeito2, diversos espaços de encontro com o poder, e com uma polifonia de vozes.

Outra caraterística sempre ressaltada nas análises sociológicas da contracultura é a origem social da população da qual emerge: jovens, brancos e de classe média3. Se isso já pode ser identificado como uma posição de sujeito particular, não equivale a uma negação de roteiros e visões do político advindos de outras posições. Para o radicalismo dos anos sessenta, a convivência com os Outros – os excluídos e marginalizados na história do mundo capitalista ocidental – é fundamental, tanto simbolicamente (para a construção da sua narrativa) quanto em termos concretos da conjuntura política, isto é, a proximidade com as lutas anti-imperialistas que estavam em ascensão desde a década anterior. A contracultura não foi uma exceção nesse sentido. No capítulo “Consuming India”, Stephens sugere também uma nova interpretação da narrativa que a contracultura elabora sobre a Índia. Reconhecendo que essas narrativas dizem muito mais sobre o próprio Ocidente do que sobre a “Índia empírica”, Stephens indaga sobre o sentido político desse fascínio (que, aliás, como ela assinala, tem todo um passado na história do imaginário ocidental) no contexto do momento antidisciplinar. Embora paradoxalmente, a (ressignificação contracultural da) Índia veio a representar uma apaixonada rejeição do American way of life: “[...] India and things Indian were perceived somehow to magically thwart disciplinary boundaries and distinguish the rebellious subject from the duped, complicit or ‘straight’ one [...] to demolish the constraints of a certain form of rationality, nationality and modern ‘subjecthood’ while at the same time paradoxically drawing on an ancient religion for legitimacy” (p. 62). Uma possibilidade, comum a determinadas narrativas convencionais, é a de ver nessas atitudes mais uma postura imperialista, de “re-apropriação” desse Outro para finalidades próprias. Mas, como nos alertam Mike Featherstone (1995) e Arjun Appadurai (1996), há outras formas mais complexas de entender as relações entre culturas locais e culturas globais: para além da tese da “apropriação” ou cooptação consumista do “exótico” – que na verdade incorpora a tese da hegemonia absoluta das culturas imperialistas – podemos pensar também em relações de troca (desigual), ressignificação e resistência. Quer dizer, podemos reconhecer as influências profundas de outras culturas não-ocidentais sobre o Ocidente, através de coexistências mais complexas, como hoje se faz nas interpretações realizadas através do olhar da “teoria pós-colonial”. Como lembra Said (1993), esse Outro sempre fez parte do Ocidente, da sua identidade, fantasias e utopias. No encanto pela Índia, havia uma procura do Outro – muitas vezes ingênua, como sugere Stephens, e sendo talvez um dos momentos “menos auto-reflexivos” da contracultura. Porém, pode também ser entendido à luz da crítica que a contracultura fazia de cultura do seu próprio país, o que se torna evidente na sua convocação metafórica mais radical: Vamos destruir a América!

De fato, a política radical dos anos sessenta destacou-se também por ter colocado – pela primeira vez no século XX – o protesto contra o imperialismo no centro da agenda política nos EUA (SAYRES et al., 1984) Assim, se é amplamente reconhecida a importância política que as lutas no Terceiro Mundo tiveram, inclusive como antecedentes do novo radicalismo no Primeiro Mundo, cabe também destacar sua importância simbólica para uma crítica da sociedade capitalista industrializada do Primeiro Mundo. Apesar da forma paradoxal em que a narrativa sobre a Índia e outros países do Terceiro Mundo – incluindo a América Latina4– fez parte do discurso da contracultura, ou seja, reproduzindo às vezes um Outro mistificado ou fabricando um mito que substituía o conhecimento empírico de realidades diferentes. No entanto, prevalece como elemento importante dentro do radicalismo dos anos sessenta o sentimento ou convicções anti-imperialistas, articuladas tanto de maneiras mais convencionalmente políticas (como no apoio às revoluções anticolonialistas, ao povo vietnamita e a Cuba), quanto nessas outras formas simbólicas, incorporando esse Outro numa narrativa sobre uma vida diferente.

Na medida que o radicalismo dos anos sessenta afasta-se da política convencional da esquerda, que enfatizava ainda a centralidade das relações (e paradigmas) de trabalho e produção, a problemática da esfera do consumo vem à tona. Em princípio, a “política antidisciplinar” rejeita tanto a burocratização do mundo do trabalho, com suas regras e hierarquias autoritárias, quanto as prerrogativas que ele gera, de trabalhar para consumir, e consumir cada vez mais. Questionava-se o sentido do trabalho e do consumo que sustentavam todo um modo de vida do qual agora se propunha tomar distância. No entanto, é devido a essas atitudes que a contracultura é freqüentemente acusada de abrir o espaço para sua própria cooptação: sua ética do prazer é vista não como resistência senão como “hedonismo”, e portanto como expressão da lógica do capitalismo tardio e seu subseqüente marketing de estilos de vida. Stephens avalia estes argumentos, assinalando duas questões interessantes a respeito: em primeiro lugar, a contracultura em geral se manteve muito consciente dos “perigos” da sua cooptação, desenvolvendo uma linguagem – a paródia – para trazer seus próprios paradoxos à tona. Em segundo lugar, podemos considerar que o próprio capitalismo desde há tempo já incorporou as duas éticas, isto é, aquela que remete ao espirito disciplinar da ética protestante, e uma outra que incita ao consumismo. Assim, na sociedade contemporânea, coexistem roteiros diferentes para o comportamento, que variam em função dos espaços (por exemplo, chão de fábrica, quartel ou shopping) e da população (por exemplo, classe média profissional, homens proletários ou donas de casa pobres) para os quais se aplicam. Assim, e sendo que a contracultura define sua visão do prazer desde fora e até em oposição aos critérios do shopping e do conformismo consumista de uma “classe média” padrão, talvez não seja interessante responsabilizá-la pela proliferação de uma ética que a antecede e à qual respondeu criticamente.

A relação da contracultura com o movimento negro e o movimento feminista é um problema que é mais enunciado do que aprofundado no livro de Stephens. Por exemplo, uma discussão maior da visão feminista do político e o lugar que ela ocupa no radicalismo dos anos sessenta poderia ajudar a esclarecer a avaliação dos seus alcances e limites. A autora reconhece sua importância, pois já no último capítulo do livro ela afirma que o caso do movimento pela libertação feminina talvez forneça os melhores argumentos para desmentir a versão convencional que reina sobre a morte e o fracasso do radicalismo dos anos sessenta, além da despolitização que seria supostamente seu legado. Vale a pena citar o trecho: “this radical movement was distinguished by its militancy, high expectations and political enthusiasm, and was a far cry from the quietism which was said to engulf former sixties activists. The women’s liberation movement confounds most judgements about the demise of sixties protest and indicates that post-sixties political disillusionment was a gendered experience” (p. 121-122). Ela menciona a crítica feita por historiadoras que analisam esse período, que argumentam que a narrativa convencional sobre a política radical da época dá prioridade à Nova Esquerda masculina, inserindo um viés na sua análise que se torna muito diferente do que seria se considerasse realmente a experiência radical das mulheres. Infelizmente, Stephens prosseguiu quase da mesma forma na sua análise da contracultura, na qual se ressaltam vozes e experiências masculinas. Uma das poucas exceções seria a discussão que faz sobre o elemento “generizado” na simbologia construída por uma vertente de ativistas, que desenvolveram uma versão romântica do sujeito político, que oferecia “heroic and mythological roles to its participants” – representações do masculino –, que reproduziam uma figura conhecida da mitologia cultural norte-americana, na figura do bandido (“the outlaw as the paragon of the political subject”) (p. 91). A questão dos valores “generizados” no discurso e nas práticas da década é sugerida mais do que aprofundada, assim como também faltou fazer um contraponto com a concepção da política desenvolvida desde uma perspectiva feminista que começa a ser articulada mais claramente no final desta década5, e que vem a desafiar também a política de uma contracultura ainda bastante masculinista.

Contudo, o trabalho de Stephens nos fornece elementos para continuar pensando essas e outras questões que ela deixou em aberto. Incita-nos a repensar nossa história social e política recente, a partir das experiências e paradoxos do nosso momento pós-moderno atual, e a continuar a busca de modos criativos e radicais para um mundo difícil onde as convencionais dicotomias (como global-local, burguesia-proletariado, centro-periferia etc.) cedem espaço a novos termos e “novos sujeitos”. O que o livro de Stephens parece deixar claro, a partir dos paradoxos que caracterizam a contracultura e seu legado histórico, é que nada é subversivo num sentido absoluto. Mostra, pois, que o subversivo é sempre relativo, contextual e – ainda mais na sociedade capitalista contemporânea – sempre susceptível à cooptação (pela “democracia do mercado”, pela “mídia”, ou pelas mesmas instituições da “política oficial”). Muitas vezes, as linguagens da resistência parecem oscilar entre aquela “reflexividade” que segundo Giddens é a promessa democratizante do mundo atual e aquilo para o qual Foucault adverte, o poder infiltrando-se por todos os canais da vida e que, justo quando pensamos trilhar novos caminhos, reinsere-nos nas suas redes. Talvez nesse sentido, a grande lição da contracultura esteja no reconhecimento que o subversivo tem que ser sempre re-inventado, para cada momento e cada lugar.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-44782001000100010

Miriam Adelman (miriam@humanas.ufpr.br) é Professora de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

APPADURAI, A. 1996. Modernity at Large : Cultural Dimensions of Globalization. Minneapolis : University of Minnesota Press.

EVANS, S. 1980. Personal Politics : The Roots of Women’s Liberation in the Civil Rights Movement and the New Left. New York : Bantam Books.

FEATHERSTONE, M. 1995. O desmanche da cultura : globalização, pós-modernismo e identidade. São Paulo : Studio Nobel/SESC.

FLAX, J. 1990. Thinking Fragments. Feminism, Psychoanalysis and Postmodernism. Berkeley : University of California Press.

GITLIN, T. 1987. The Sixties : Years of Hope, Days of Rage. New York : Bantam Books.

JAMESON, F. 1984. Periodizing the Sixties. In : SAYRES, S., STEPHANSON, A., ARONOWITZ, S. & JAMESON, F. (eds.). The Sixties without Apology. Minneapolis : University of Minnesota Press.

SAID, E. 1993. Cultura e imperialismo. São Paulo : Companhia das Letras.

SAYRES, S., STEPHANSON, A., ARONOWITZ, S. & JAMESON, F. (eds.). 1985. The Sixties without Apology. Minneapolis : University of Minnesota Press.

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1 Desde versões como o de Christopher Lasch (a “cultura do narcisismo”) até os lamentos de pessoas como Harold Bloom na sua defesa do cânone ocidental clássico.

2 Esse fazer a partir de diferentes posições de sujeito remete, por exemplo, a questões como raça, classe e gênero e rejeita a noção de uma forma de política ou reinvindicação prioritária para todos. Aceita também como viável e desejável o diálogo desde as diversas posições, a partir dos fragmentos (FLAX, 1990), que resgatam e criam as pontes entre as diversas vozes, tanto as antigas quanto as dos “sujeitos emergentes”.

3 Sua convivência com movimentos provenientes de outros setores da população, por exemplo, o de jovens negros radicais, e a forma como esses movimentos dialogam e conseguem adeptos de outras camadas da população, são questões tratadas nas análises sociológicas do período. Ver, por exemplo, Gitlin (1987).

4 Como é o caso da importância simbólica das viagens pelo México na literatura da geração beat, e na posição ocupada pela revolução cubana no imaginário da juventude rebelde dos anos sessenta.

5 A visão feminista da política destaca-se em primeiro lugar por sua inovadora problematização da relação entre o público e o privado, que foi introduzida pelo movimento feminista através do conhecido lema, O pessoal (também) é político. Essa inovação (junto com a identificação das relações de gênero como uma forma fundamental de poder em nossa sociedade) teve profundas conseqüências até para noções de mobilização, organização e ação políticas, amplamente documentadas na literatura que trata do início do movimento da libertação feminina nas décadas de sessenta e setenta nos EUA. Ver, por exemplo, Evans (1980).

 

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POR UNA DEFINICIÓN DE LA CONTRACULTURA – Por Daniel Reyes León
En el momento que algún tipo de macroorganización como un estado pretende construir, en diversas áreas, conocimientos que fundamenten las nociones de patria y de identidad local, podemos entrar a hablar de políticas culturales. Esta definición retrotrae una definición de la cultura que no siempre va de acuerdo con la producción artística, producción que en la mayoría de los casos no abarca un espacio tan amplio como para entrar a comprender la definición de cultura, pero que sí esclarece su traducción en la medida que se presenta como un conocimiento no codificado -es decir, no necesariamente mecanizado para el aprendizaje rutinario- y, en muchos casos, hecho espectáculo o tan fragmentario que no se le permite entrar a dialogar con una definición de la cultura.
La definición de cultura no tiene nada de seductor, en efecto, ni siquiera interesa; en relación a la cultura, los productos artísticos -sean éstos de cualquier índole- se plantean formalmente como artefactos seductores, o como eventos seductores. Es en el seno de la seducción donde nace una idea de contracultura, ya que es aquí donde la canalización física y espacial del producto artístico puede entrar a definirse como una obra, seductora también, en la medida que desarticula formalmente la corriente que define los términos.
En el seno de la cultura occidental existe una gran cantidad de obras que, según sus hacedores y sus receptores, entran a conformar el mundo físico de la cultura, es decir, y siguiendo la primera definición de política cultural que he dado, entran a conformar el mundo de los productos culturales. Este proceso de canalización es unidireccional. Aunque se intente ocultar por diversos medios, como las modas o la tecnología o las sencillas generaciones, traslada las obras a un estado producto, generalmente organizado desde cúpulas de poder que se pliegan ante la macro organización de la cultura.
Aunque la paranoia de los supersistemas no pueda ser demostrada bajo ningún parámetro comunicacional más que ingresando a los códigos de la ciencia ficción -situación que neutraliza la posición cultural- , finalmente no se trata de una paranoia total. Es decir, no ingresamos a un paradigma psicológico de la persecución, sino a una confusión social de los límites que se manejan dentro de las políticas culturales -sólo las políticas culturales-. Las obras tienen autores, que apadrinan su producto; los artistas tienen mecenas, que apadrinan al artista; en un país sin mecenas, el estado apadrina a los artistas y lo hace a través de políticas culturales, que se basamentan en una gestión pública y en un trabajo de imagen país. Esto es indefectiblemente así, basta ver los financiamientos estatales como FONDART, el fondo del libro, la ley de donaciones culturales y muchos otros que derivan dineros fiscales al financiamiento de la cultura, bajo una regulación estrictamente burocratizada para servir al estado. En este sentido, un mecenas al estilo siglo XVIII puede ser menos problemático para una obra, aunque cabe recordar que la población del mundo ha aumentado y que para conocer existen diversos medios que acercan, de manera esencial y previamente digerido, los productos artísticos a las personas.
La contra cultura plantea una posición inversa. La autogestión es el argé de la contracultura, y se plantea un posicionamiento que relativiza las políticas culturales, que son un objetivo que se encuentra en la mira de una producción cargada de cierta violencia, especialmente dirigida a la corriente que eleva a algunos artistas bajo la tutela estatal. Podríamos decir que la democratización de un estado en pañales -pero con algo de dinero entre la piel y el pañal- ha traído como consecuencia un apadrinamiento academicista de la producción de obras, entendiendo academicista como la regulación del canon estético bajo la imposición de una elite educada que decide de manera bipolar lo que ingresa y lo que se excluye.
¿Qué diferencia existe ahora entre el modelo de la academia francesa del siglo XIX y el actual patrocinio estatal? Básicamente, el contexto político, la democracia. Quizás los pipiolos y los pelucones no eran capaces de ver un objeto en las producciones artísticas de Chile en el siglo ante pasado, pero ahora que esos productos sientan las bases de una imagen de país, la estructura de la academia francesa del siglo XIX se impone bajo el positivismo científico-político de la evolución. Es decir, “estamos en el año 2003, por lo que las cosas han cambiado mucho”. Por sobre lo epidérmico de esa frase, lo esencial sigue tan estático como siempre. Difícilmente, en este contexto, se pueden producir fuerzas contraculturales que se sustenten en una lógica de funcionamiento, ya que el modelo a desestructurar es uno burocráticamente atrasado en relación a las propuestas actuales. El resultado de esto son esporádicas manifestaciones rápidamente absorbidas por la corriente sistémica, que apelan a una respuesta igualmente epidérmica y, por lo tanto, insustanciales.
El otro fenómeno es el de la absorción por parte del espectáculo, es decir por nociones de ética o de sociedad en relación a funcionamientos extra artísticos. Es el caso de la casa de vidrio, la baby vamp, el desnudismo social-fotográfico, la obra Prat, el pececito en la licuadora, y muchos otros que desde una plataforma de discurso artístico, derivan en una discusión filosófico-ética o sencillamente en una discusión sobre la libertad de pensamiento, sin lograr perforar la sensibilidad artística a niveles organizativos. Y si nos retrotraemos un poco a la historia francesa, vemos que libertad e igualdad -junto con fraternidad- son conceptos incluidos por los poderes post revolucionarios en la definición de Francia. ¿Acaso Chile continúa en una labor de instauración de la república? Si es así, entonces muchos estamos perdidos, ya que deberíamos empezar a hacer obras sobre el cambio de mando del 90, el mop-gate, el juramento de los O’Higginianos, etc.
Puede que para el arte la democracia no sea el mejor régimen, ya que es una caja de Pandora en relación a las interpretaciones populistas. Sin embargo, las política culturales nunca han seguido un régimen democrático, más bien continúan con una monarquía burocratizada en formularios universales -es decir, para todos- que sí se pueden rearticular, para finalmente adecuarse de manera transitoria a la creación artística posterior a la dictadura, momento en que la contracultura ya no sólo vale como opinión política.

 

Em Busca do Discurso Perfeito…

THE SEARCH…

 

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